Blog
Relatório multiprofissional em psicologia: organização e limites
O relatório multiprofissional é o documento que nasce do seu trabalho em equipe com profissionais de outras áreas. Pela Resolução CFP nº 06/2019 (art. 12), ele tem os mesmos cinco itens do relatório psicológico: identificação, descrição da demanda, procedimento, análise e conclusão. Pode ser escrito em conjunto, mas com uma regra central: a parte da psicologia fica separada e identificada, e cada profissional responde pelo que escreve.
Quando ele é o documento certo
O relatório multiprofissional aparece em lugares onde várias áreas cuidam da mesma pessoa: hospitais, serviços de reabilitação, escolas, CAPS, serviços de assistência social, clínicas com várias especialidades. A equipe precisa comunicar um acompanhamento compartilhado a alguém de fora, ou registrar uma etapa do trabalho conjunto.
Se o pedido é só sobre o seu trabalho como psicólogo, o documento é o relatório psicológico. Se houve avaliação psicológica formal para subsidiar uma decisão, o documento é o laudo. Para ver os seis tipos lado a lado, leia documentos psicológicos: tipos e cuidados na elaboração.
Como organizar os cinco itens
1. Identificação
Além do título, do nome da pessoa atendida, de quem solicitou e da finalidade, a norma pede que constem todos os profissionais responsáveis pelo documento, com a categoria profissional e o número de registro de cada um. Quem lê precisa saber, logo no início, quem está falando.
2. Descrição da demanda
É requisito indispensável. Explique o motivo do acompanhamento e de onde vieram as informações. A demanda também justifica os procedimentos que vêm em seguida.
3. Procedimento
Aqui entram o raciocínio técnico, o que foi feito pela equipe e o referencial teórico. Um ponto específico do art. 12: os procedimentos e técnicas privativos da psicologia devem ser descritos separados dos procedimentos das outras áreas. Não misture, num mesmo parágrafo, a sua técnica com a técnica da fonoaudiologia ou da terapia ocupacional.
4. Análise
Na análise, cada profissional escreve a sua parte separadamente, com um subtítulo que traga o nome e a categoria profissional. Para a sua seção valem os mesmos cuidados do relatório psicológico: sem transcrever sessões, sem afirmações sem fonte e só com o que serve à finalidade.
5. Conclusão
A conclusão pode ser feita em conjunto, sobretudo quando o trabalho é interdisciplinar. Ela deve sair do que foi descrito na análise. No encerramento vêm local, data, as assinaturas dos profissionais e as páginas numeradas e rubricadas. Como nos demais documentos, o prazo de validade do conteúdo vai no último parágrafo.
O que pode ser conjunto e o que não pode
| Parte do documento | Pode ser conjunta? |
|---|---|
| Identificação | Sim, com todos os autores identificados |
| Descrição da demanda | Sim |
| Procedimento | Sim, mas a parte privativa da psicologia vem separada |
| Análise | Não. Cada área escreve a sua, com subtítulo próprio |
| Conclusão | Sim, construída a partir das análises |
Os limites que a psicologia leva para a equipe
Sigilo
A norma pede que o relatório traga as informações necessárias aos objetivos do trabalho multiprofissional, respeitando o sigilo previsto no Código de Ética Profissional do Psicólogo. Na prática: a equipe precisa da sua leitura, não do conteúdo das sessões. Pergunte a cada frase se ela ajuda a responder à finalidade do documento. Se não ajuda, fica no seu registro.
Autonomia de cada profissional
Escrever junto não significa assinar embaixo de tudo. Cada área preserva a sua autonomia técnica e ética. Você responde pela parte da psicologia; não precisa nem deve validar a análise de outra profissão que não é da sua competência.
O relatório não substitui o seu registro
A resolução deixa claro que o relatório multiprofissional não dispensa o registro documental do psicólogo, tratado na Resolução CFP nº 001/2009. Mesmo que a equipe use um prontuário multiprofissional, o seu registro do caso continua existindo, com a cópia do documento emitido, a data, a finalidade e o destinatário. A diferença entre esses registros está em prontuário ou registro documental: qual é a diferença?.
Devolutiva
Para o relatório psicológico e o laudo, a norma torna a entrevista devolutiva um dever. Para os demais documentos, entre eles o relatório multiprofissional, ela é recomendada quando solicitada. Combine com a equipe quem fará esse retorno e como ele será registrado.
Exemplo fictício
Uma criança de oito anos é acompanhada num serviço de reabilitação por fisioterapeuta, fonoaudióloga e psicólogo. A escola pede um documento para planejar o próximo semestre. A equipe decide fazer um relatório multiprofissional.
Na identificação, constam os três profissionais com categoria e registro, a escola como solicitante e a finalidade “subsidiar o planejamento pedagógico”. A demanda é escrita em conjunto. No procedimento, o psicólogo descreve à parte a sua técnica de trabalho com a criança e a família. Na análise, cada um escreve sob um subtítulo com o seu nome e a sua profissão. O psicólogo fala da adaptação da criança às atividades e do apoio da família, sem reproduzir falas das sessões. A conclusão traz sugestões combinadas pela equipe e o prazo de validade. Os três assinam, e cada um guarda a cópia no seu registro. Todos os dados são fictícios.
Erros comuns
- Uma análise única, sem autoria. A norma pede a análise de cada área separada e identificada.
- Misturar técnicas. A parte privativa da psicologia precisa aparecer separada no procedimento.
- Levar para a equipe o que é do consultório. Informe o necessário para a finalidade, não o conteúdo das sessões.
- Achar que o relatório basta. Ele não substitui o seu registro documental.
- Esquecer a validade. O prazo vai no último parágrafo do documento.
Antes de escrever
As resoluções do CFP podem ser atualizadas. Confira o texto vigente da Resolução nº 06/2019 e o Manual Orientativo do CFP, lançado em dezembro de 2025, que traz exemplos de cada documento. Se o serviço tiver regras internas sobre documentos de equipe, elas se somam à norma, não a substituem. Este artigo é uma orientação geral e não substitui a leitura das normas.
A sua parte no relatório fica melhor quando nasce de registros feitos sessão a sessão, organizados e fáceis de consultar. Para manter o histórico de cada paciente em um só lugar, Criar conta grátis leva menos de um minuto.
Fontes
Cuide de quem cuida — comece pelo PSIO
Prontuário, organização e apoio de IA num só lugar. A palavra final é sempre sua.
Criar conta grátisSem cartão · Sem fidelidade
Termos relacionados
Leia também
- Relatório psicológico: estrutura e cuidados de escrita
- Documentos psicológicos: tipos e cuidados na elaboração
- Prontuário ou registro documental: qual é a diferença?
- O que deve constar no prontuário psicológico?
- Atestado psicológico: quando é cabível e o que observar
- Relatório psicológico, prontuário e evolução: qual a diferença?