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Relatório psicológico: estrutura e cuidados de escrita
O relatório psicológico tem cinco partes obrigatórias, definidas pela Resolução CFP nº 06/2019: identificação, descrição da demanda, procedimento, análise e conclusão. Ele comunica o trabalho que você realizou com a pessoa atendida e não tem finalidade de produzir diagnóstico psicológico. A escrita deve ser objetiva, impessoal, em terceira pessoa e sem transcrever o que foi dito nas sessões.
Para que serve o relatório
O relatório psicológico entra em cena quando alguém precisa entender o acompanhamento de forma mais completa do que uma declaração permite. Pode ser outro profissional que vai receber um encaminhamento, uma escola, uma instituição ou o próprio paciente.
Ele descreve a atuação do psicólogo, não a pessoa como um todo. Se o pedido exige certificar uma condição psicológica, o documento é o atestado. Se houve avaliação psicológica formal para subsidiar uma decisão, o documento é o laudo. A diferença entre relatório e registro interno está em relatório psicológico, prontuário e evolução: qual a diferença?.
As cinco partes, uma por uma
1. Identificação
É o cabeçalho do documento. A norma pede:
- título “Relatório Psicológico”;
- nome completo ou nome social da pessoa atendida;
- nome de quem solicitou;
- finalidade do relatório;
- seu nome e número de inscrição no CRP.
A finalidade merece atenção: ela orienta tudo o que vem depois. Um relatório para encaminhamento a outro profissional não é escrito do mesmo jeito que um relatório para a escola.
2. Descrição da demanda
Aqui você explica o que motivou a busca pelo atendimento e quem forneceu essas informações. A Resolução CFP nº 06/2019 trata a descrição da demanda como requisito indispensável.
Escreva de forma direta. Por exemplo: “Segundo relato da própria atendida, a busca pelo atendimento ocorreu em razão de dificuldades de adaptação após mudança de cidade.”
3. Procedimento
Nesta parte você mostra como o trabalho foi feito:
- o processo de trabalho e o referencial teórico que o orientou;
- as pessoas ouvidas;
- o número de encontros e a duração do acompanhamento.
Quem lê precisa entender de onde vieram as informações que aparecem na análise.
4. Análise
É a parte mais delicada. Você descreve as características e a evolução do trabalho de forma organizada, com base no que foi registrado ao longo do acompanhamento. Três cuidados da norma:
- sem descrição literal das sessões, a não ser que haja justificativa técnica;
- sem afirmações sem fonte: se uma informação veio de um familiar, isso precisa ficar claro;
- só o que serve à finalidade: detalhes que não respondem ao pedido não precisam sair do consultório.
5. Conclusão
A conclusão deriva da análise. Pode trazer encaminhamentos, orientações e a sugestão de continuidade do atendimento. Feche com o prazo de validade do conteúdo, que a norma pede no último parágrafo, e com o encerramento: local, data, carimbo com nome e CRP e assinatura. Se houver mais de uma página, todas numeradas e rubricadas, com a assinatura na última.
Cuidados de escrita
O artigo 6º da Resolução CFP nº 06/2019 reúne os princípios de linguagem. Na prática:
| Em vez de | Prefira |
|---|---|
| “Eu percebi que ela estava ansiosa.” | “Observou-se, ao longo dos encontros, relato frequente de preocupação com…” |
| “Ele disse: ‘não aguento mais meu chefe’.” | “O atendido relatou conflitos recorrentes no ambiente de trabalho.” |
| “A mãe é superprotetora.” | “Segundo informações da atendida, a mãe participa ativamente das decisões da filha.” |
| Termos técnicos sem explicação | Linguagem que o destinatário consegue entender |
O teste final é simples: quem vai receber o relatório entende o texto sem precisar ligar para você?
Devolutiva, entrega e guarda
Entrevista devolutiva
Para o relatório, a norma torna obrigatória ao menos uma entrevista devolutiva com a pessoa atendida, o grupo, a instituição ou os responsáveis. Se ela não puder acontecer, registre os motivos.
Protocolo de entrega
Entregue o relatório diretamente ao beneficiário, ao responsável legal ou ao solicitante, com protocolo assinado por quem recebe. Mais em entrega de documento psicológico.
Guarda
O relatório e o material que o fundamentou devem ser guardados por no mínimo cinco anos, em meio físico ou digital, conforme a Resolução CFP nº 001/2009. O prazo pode ser maior por lei ou decisão judicial.
Relatório multiprofissional
Quando o trabalho é feito em equipe com profissionais de outras áreas, o documento pode ser um relatório multiprofissional. Ele segue as mesmas características do relatório psicológico, e a parte que cabe à psicologia continua sob a sua responsabilidade técnica e ética.
Exemplo fictício
Uma psicóloga acompanha uma adolescente há oito meses. A escola pede um relatório para planejar adaptações em sala. Ela conversa com a adolescente e os responsáveis sobre o que vai constar. Na identificação, registra a escola como solicitante e a finalidade “subsidiar o planejamento pedagógico”. Na demanda, informa que os dados vieram da adolescente e da mãe. No procedimento, cita a abordagem, o número de encontros e as pessoas ouvidas. Na análise, descreve a evolução sem reproduzir falas. Na conclusão, sugere adaptações e define a validade. Faz a devolutiva, entrega com protocolo e arquiva a cópia. Todos os dados são fictícios.
Erros comuns
- Pular a descrição da demanda. A norma trata essa parte como indispensável.
- Transcrever falas. O relatório não é a ata das sessões.
- Fazer diagnóstico no relatório. Ele não tem essa finalidade.
- Escrever em primeira pessoa. A norma pede texto impessoal, em terceira pessoa.
- Esquecer validade e devolutiva. São exigências para o relatório.
Antes de escrever
As resoluções do CFP podem ser atualizadas. Consulte o texto vigente da Resolução nº 06/2019 e o Manual Orientativo do CFP, lançado em dezembro de 2025, que traz exemplos de cada documento. Este artigo é uma orientação geral e não substitui a leitura das normas. Para uma visão dos seis tipos de documento, veja documentos psicológicos: tipos e cuidados na elaboração.
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Fontes
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